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sábado, 6 de fevereiro de 2010

A ARTE DE ATIRAR PEDRAS


Jo.8.1-11

“Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na leis nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.
Neste clássico episódio ocorrido no ministério terreno de Jesus, nos deparamos com um quadro que mostra a grande diferença entre a religião exercida pelos homens e o verdadeiro evangelho trazido e vivido pelo Senhor Jesus. Na história desta mulher vemos alguns pontos importantes acerca dessa pseudo-religião exercida pelos escribas e fariseus daqueles dias, que nos leva à reflexão sobre o farisaísmo exercido ainda hoje. Notemos então:
a) A religião se coloca acima do ser humano. Apesar de passar toda sua vida vivendo uma religião ritualista e legalista, aquela mulher não pode encontrar uma porta de escape. Seus mentores só podiam condená-la à morte, pois era isso o que ordenava a religião judaica. O interesse pelas regras e leis estava acima do valor da vida humana.
b) A religião torna os homens egoístas. Esses homens usaram aquela mulher, expondo-a perante toda a multidão, simplesmente para a consecução de seus próprios propósitos, os quais eram conseguirem pegar Jesus em qualquer contradição legal ou de seus ensinamentos
c) A religião leva o homem a exercer o juízo e não a misericórdia. Embora, desde de criança servisse àquela religião, todos, inclusive seus amigos, estavam ali para condená-la e, com pedras nas mãos, executá-la.
d) A religião leva o homem a se ver melhor que os outros. Aqueles homens são convidados por Jesus a atirarem “a primeira pedra”, caso não tivessem nenhum pecado. Só quando confrontados com a palavra de Jesus foi que perceberam que eram tão pecadores quanto ela.

Não é com pedras que se reforma caracteres. Só pode atirar pedras àqueles que se encontram em condições morais para tal, no entanto, aquele que, por sua pureza interna, pela vida reta e santa, pode atirar pedras, não o faz, ao contrário, manifesta o amor e o perdão. Naquele ato, somente Jesus tinha condição para apedrejar; contudo, Ele envolveu aquela infeliz no seu manto de amor e misericórdia. Que exemplo maravilhoso para os dias em que vivemos. Quantos se comprazem em jogar pedras, em ferir, em desmoralizar.
Numa das obras de Cecília Meireles, lemos a história de um famoso poeta japonês chamado Bachô, muito conhecido pela brevidade de suas composições. Certa vez um de seus discípulos trouxe-lhe um “hai-kai” (poema de dezessete sílabas) para ele o apreciar. Era assim o poema:
“Uma libélula rubra
Tirai-lhe as asas:
uma pimenta.”
Bachô, diante da imagem cruel, corrigiu o poema com uma simples modificação:
“Uma pimenta
Colocai-lhe asas:
uma libélula rubra.”
E Cecília Meireles conclui: “Este pequeno exemplo de compaixão, conservado num breve poema japonês de trezentos anos, emociona e confunde estes nossos grandiosos tempos bárbaros. Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias.”

O legalismo da religião nos tem cegado os olhos para o amor e a misericórdia. Não sejamos religiosos, mas cristãos. Devemos servir a Deus com todo o nosso coração. Enquanto não colocarmos nosso coração em tudo que fazemos, não passaremos de religiosos.

É melhor transformar pimentas em libélulas. É mais nobre e bíblico dar a mão aos caídos e ajudá-los a subir ao pedestal glorioso onde Deus está. É agradável ao Senhor o fato de suportarmos os fracos, levar a carga do nosso irmão sofredor, chorar com os que choram. Jesus disse: “...se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” (Mt 5.20)

“Não é suficiente a observância de leis e costumes; precisa-se certa realidade espiritual produzida pelo relacionamento com Deus pela fé que resulta numa retidão interna refletida pela expressão externa” (Russell P. Shedd).

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