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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Reino de Deus e o reino dos homens



Mt 20.20-28
Introdução

Neste texto vemos duas visões completamente diferentes entre si. Elas refletem os desejos de dois reinos diferentes. O incidente descrito no texto ilustra bem o perigo de se preocupar com insignificâncias pessoais numa hora quando acontecimentos de imenso alcance espiritual são iminentes. De reflexões soleníssimas feitas por Jesus, com respeito à sua morte e ressurreição, passamos a um pedido ambicioso dos seus discípulos caracterizado pelo desejo de posições e poder.

I. A visão terrena do reino - reino dos homens

1. gera a cobiça por posições (v.21,22)
Segundo Mateus é a mãe de Tiago e João que formula o pedido (chamava-se Salomé e parece ser irmã de Maria). Ela queria que seus filhos recebessem posições de honra no reino. Esta é a primeira intriga eclesiástica por posições destacadas na igreja. Talvez uma maquinação contra a pessoa de Pedro, membro do grupo dos três.
O pedido de posições honoríficas e de autoridade presume a crença num reino terreno e revela a má compreensão que eles ainda tinha do reino de Deus.Os discípulos só olhavam para coisas deste mundo. Ainda estavam dominados pelos impulsos puramente humanos e pecadores. A cobiça por posições perdura até hoje e seus níveis de intensidade parecem ter aumentado e não diminuido. Provavelmente, além de estimulada pelo pecado, também pela estrutura de poder mantida ainda hoje pela igreja.

2. Gera indignação nos demais (v.24)
Os outros discípulos, ao ouvirem a proposta daquela mãe, evidenciaram uma atitude pouco louvável em comparação com os dois irmãos ambiciosos, pois eles também se sentiriam muito insatisfeitos com o último lugar. Parece que o que motivou essa ira foi o ciúme, mais do que a consciência da impropriedade da parte dos irmãos. A disputa pelo poder é algo que pode atingir proporções inimagináveis; despertar o que há de mais terrível dentro do ser humano e produzir os mais nefastos resultados.

É interessante percebermos que aqueles homens ainda estavam crus no tocante ao ensino de Jesus. Seus ouvidos estavam sempre atentos, mas seus corações ainda precisavam ser transformado pelo que ouviam. Jesus sempre deixou bem claro que ouvir somente não basta, é preciso que o homem obedeça seus ensinos; que seja transformado em uma nova criatura. Criatura moldada e dirigida pelo Espírito Santo. Criatura com novo coração, nova mente. Que luta para não mais viver segundo os padrões humanos, mas sim pelos divinos.
Pelo que podemos ver nesse texto o reino dos homens é caracterizado pelo desejo de primazia, desejo de poder, amor aos primeiros lugares. O reino dos homens ainda está dominado pelo pecado.

Vejamos o outro lado da moeda.

II. Visão celestial do Reino de Deus.

1. Exige assumir responsabilidades (v.22)
O Senhor fala de um cálice e de um batismo que Ele iria experimentar. Essa é uma referência clara ao sofrimento que o aguarda. Jesus usa essas imagens, com sentido tomado de empréstimo do AT, em que são empregados como imagens do julgamento divino. Tenta mostrar a seus discípulos que as posições alcançadas no reino passam pelo caminho do serviço ao extremo, aquele que está disposto a dar a própria vida. A replica dos dois irmãos está cheia de ironia. Acham que sabem que é que estão prometendo quando, na realidade, nada sabem. O fato de terem abandonado ao Senhor no jardim (26.56), mostra quão despreparados estavam para o que viria.
Como é interessante ver que as pessoas que almejam posições nunca sabem o que elas representam e exigem. Conseguem somente visualizar o "status" que elas revelam. Isso mostra o quanto estão despreparadas em si mesmas e também para ocupar tais posições, pois não conseguem enxergar as responsabilidades imbutidas nas mesmas.

2. Coloca Deus no trono (v.23)
Na verdade eles participarão de seu próprio sofrimento, e sofrerão sua própria cota de dores por causa do Senhor, no entanto isso não resolve a questão da posição que ocuparão no reino de Deus. Jesus insiste que esta é uma questão que compete a Deus, e só a Deus resolver. A honra vinda do homem é efêmera e conduz a soberba, mas aquela que vem de Deus engrandece e não acrescenta dores.

3. Apresenta uma nova estrutura de governo (v.25-28)

a) diferente do governo humano (v.25)
Jesus fala a todos os discípulos, fazendo contraste entre os padrões de vida entre os gentios com o padrão que seus discípulos devem seguir. Os governadores pagãos exercem domínio sobre seus súditos, não é assim que seus discípulos devem agir. No reino os homens, desde os tempos primódios até hoje, vamos encontrar a procura pelo poder; a satisfação em governar e assenhorar-se dos outros; o uso da influência pessoal para sua própria vantagem. Como cristãos devemos estudar as Escrituras para funcionar de acordo com o modelo e diretriz que nelas encontramos. Uma das diretrizes dizem respeito aos uso dos dons espirituais. Os dons são capacitações divinas dadas a cada cristão, através do qual ele fica habilitado a servir ao Corpo de Cristo. Pelo fato da obra do ministério ser espiritual, Deus provê uma capacitação espiritual a fim de que a Sua igreja possa executá-la. Não é de se admirar, portanto, que a obra do ministério falha, quando essa natureza espiritual deixa de ser compreendida. As igreja têm a tendência de confiar a obra do ministério a pessoas que demonstram habilidades naturais para a tarefa, mas fracassam lamentavelmente por não possuírem capacitação espiritual.

b) Exige o serviço ao próximo (v.26,27)
No reino o segredo da grandeza não está na habilidade de tiranizar os outros, mas na prontidão em servir ao próximo.Jesus tenta mostrar aqui um princípio dos mais importantes: a grandeza em se ser pequeno. Ele apresenta um novo modelo de liderança, conhecida como liderança de servo: o maior é em primeiro lugar aquele que serve a todos.


c) Apresenta Cristo como modelo (v.28)
Um grande exemplo de liderança de servo nós o temos no próprio Jesus. Ele é o Filho do homem, que veio para servir e não para ser servido. Sentar-se ao lado direito, ou esquerdo, no reino, exige uma vida de serviço semelhante a do Senhor Jesus.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A ARTE DE ATIRAR PEDRAS


Jo.8.1-11

“Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na leis nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.
Neste clássico episódio ocorrido no ministério terreno de Jesus, nos deparamos com um quadro que mostra a grande diferença entre a religião exercida pelos homens e o verdadeiro evangelho trazido e vivido pelo Senhor Jesus. Na história desta mulher vemos alguns pontos importantes acerca dessa pseudo-religião exercida pelos escribas e fariseus daqueles dias, que nos leva à reflexão sobre o farisaísmo exercido ainda hoje. Notemos então:
a) A religião se coloca acima do ser humano. Apesar de passar toda sua vida vivendo uma religião ritualista e legalista, aquela mulher não pode encontrar uma porta de escape. Seus mentores só podiam condená-la à morte, pois era isso o que ordenava a religião judaica. O interesse pelas regras e leis estava acima do valor da vida humana.
b) A religião torna os homens egoístas. Esses homens usaram aquela mulher, expondo-a perante toda a multidão, simplesmente para a consecução de seus próprios propósitos, os quais eram conseguirem pegar Jesus em qualquer contradição legal ou de seus ensinamentos
c) A religião leva o homem a exercer o juízo e não a misericórdia. Embora, desde de criança servisse àquela religião, todos, inclusive seus amigos, estavam ali para condená-la e, com pedras nas mãos, executá-la.
d) A religião leva o homem a se ver melhor que os outros. Aqueles homens são convidados por Jesus a atirarem “a primeira pedra”, caso não tivessem nenhum pecado. Só quando confrontados com a palavra de Jesus foi que perceberam que eram tão pecadores quanto ela.

Não é com pedras que se reforma caracteres. Só pode atirar pedras àqueles que se encontram em condições morais para tal, no entanto, aquele que, por sua pureza interna, pela vida reta e santa, pode atirar pedras, não o faz, ao contrário, manifesta o amor e o perdão. Naquele ato, somente Jesus tinha condição para apedrejar; contudo, Ele envolveu aquela infeliz no seu manto de amor e misericórdia. Que exemplo maravilhoso para os dias em que vivemos. Quantos se comprazem em jogar pedras, em ferir, em desmoralizar.
Numa das obras de Cecília Meireles, lemos a história de um famoso poeta japonês chamado Bachô, muito conhecido pela brevidade de suas composições. Certa vez um de seus discípulos trouxe-lhe um “hai-kai” (poema de dezessete sílabas) para ele o apreciar. Era assim o poema:
“Uma libélula rubra
Tirai-lhe as asas:
uma pimenta.”
Bachô, diante da imagem cruel, corrigiu o poema com uma simples modificação:
“Uma pimenta
Colocai-lhe asas:
uma libélula rubra.”
E Cecília Meireles conclui: “Este pequeno exemplo de compaixão, conservado num breve poema japonês de trezentos anos, emociona e confunde estes nossos grandiosos tempos bárbaros. Mas sua luz não se apaga, e até se vê melhor – porque vastas e assustadoras são as trevas dos nossos dias.”

O legalismo da religião nos tem cegado os olhos para o amor e a misericórdia. Não sejamos religiosos, mas cristãos. Devemos servir a Deus com todo o nosso coração. Enquanto não colocarmos nosso coração em tudo que fazemos, não passaremos de religiosos.

É melhor transformar pimentas em libélulas. É mais nobre e bíblico dar a mão aos caídos e ajudá-los a subir ao pedestal glorioso onde Deus está. É agradável ao Senhor o fato de suportarmos os fracos, levar a carga do nosso irmão sofredor, chorar com os que choram. Jesus disse: “...se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” (Mt 5.20)

“Não é suficiente a observância de leis e costumes; precisa-se certa realidade espiritual produzida pelo relacionamento com Deus pela fé que resulta numa retidão interna refletida pela expressão externa” (Russell P. Shedd).

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CALOR HUMANO



Rm. 16.1-16

Vivemos e vivemos e sempre somos tragados pelos padrões desenvolvidos pela sociedade que nos cerca. A pressão social por mudanças é sempre muito forte promovida por interesses econômicos, políticos ou pela sede de poder. Há pessoas que se sentem poderosas quando, através de suas idéias, conseguem mudar hábitos, comportamentos e ao mesmo tempo ditar outros. São os reformadores sociais.

É claro que tudo está em um processo de evolução, e que não podemos permanecer onde estávamos a 50 anos atrás, porém existem certos valores que considero imutáveis. São valores que determinam o que somos: seres humanos. Entre tantas perdas humanas, perdemos a cada dia, aquilo que chamamos de calor humano: o interesse pelo próximo, a consideração, o relacionamento, a ternura, o carinho.

É de conhecimento nosso que o apóstolo Paulo tinha um temperamento por vezes austero e que, às vezes se dirigia com dureza aos irmãos, como aos gálatas ou aos de Corinto. Porém em suas epístolas podemos ver uma profunda sensibilidade de sua parte. Mesmo na Epístola aos Coríntios, vemos essa sensibilidade na demonstração do seu ressentimento quanto à ingratidão e a apostasia de alguns irmãos insatisfeitos.

Queremos mostrar a generosidade de sua alma, provando que o calor humano vem de dentro do coração. Mesmo que por vezes não deixasse de ser áspero para com os promotores de desordens e devassos, podemos vê-lo tendo atitudes e expressões amorosas, como quando se expressa aos tessalonicenses:

“...fomos bondosos quando estávamos entre vocês, como uma mãe que cuida dos próprios filhos. Sentindo assim tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós...vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos...” (1Ts. 2.7,8,11).

Na alma do apóstolo a lógica e o sentimento, a paixão e a severidade fundiam-se numa combinação de flexibilidade. Era de fato extraordinária a mentalidade deste “gênio do amor”, que tão humanamente se dedicava às almas.

O texto que lemos nos faz pensar, em primeiro lugar como este homem, que por vezes parecia tão rude e de temperamento tão difícil, possui uma lista de amigos tão extensa, numa igreja que ainda não conhecia. Aliás, ao longo de sua vida, o apóstolo, colecionou uma verdadeira galeria de amigos e admiradores. E mesmo após sua morte continua aumentando essa lista. São as sucessivas gerações de leitores de seus escritos, grandemente impressionadas e influenciadas por eles. Vejamos alguns desses nomes: Priscila e Áquila, Epêneto, Maria, Andrônico e Júnias, Amplíato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trifena e Trifosa, Pérside, Rufo e sua mãe, Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas, Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas. Podíamos acrescentar a essa lista muitos outros nomes, além dos nossos próprios.

Em segundo lugar, pensemos nas muitas saudações aos seus amigos de Roma: Ao lembrar-se de cada nome os agraciava com frases como:

Febe – “tem hospedado a muitos” – Uma diaconisa hospitaleira.
Priscila e Áquila – “arriscaram a vida por mim” – Amigos até a morte.
Epêneto - “primeiro convertido na Ásia” – Primícia entre os crentes da Ásia.
Maria - “trabalhou arduamente” – Trabalhou em prol da igreja de Roma.
Andrônico e Júnias - “estiveram na prisão comigo” – Companheiros de sofrimento.
Amplíato e Estaquis - “meus amados” – Amigos do coração.
Urbano - “meu cooperador” – Aquele que assistia de perto.
Apeles – “aprovado” – Aquele que alcançou lugar de excelência.
Trifena e Trifosa e Pérside – “trabalharam arduamente” – Mulheres audaciosas e corajosas.
Rufo e sua mãe – “eleitos”. Mas que um amigo, um irmão e também uma segunda mãe.

Havia por parte de Paulo um carinho por aquelas vidas. Elas eram importantes para ele, e, lembrava-se delas.

Somados a esta lista admirável, ainda o vemos á procura de Tito. Este foi um dos companheiros de Paulo, em quem o apóstolo depunha considerável confiança. Teve grandes incumbências como a de suavizar a tensa situação que surgira entre Paulo e os coríntios, e também a missão de consolidar a obra em Creta. Por sua causa Paulo perdeu uma oportunidade de pregar o Evangelho em Trôade: “Quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo e vi que o Senhor me havia aberto uma porta, ainda assim, não tive sossego em meu espírito, porque não encontrei ali meu irmão Tito. Por isso, despedi-me deles e fui para a Macedônia” (2Co. 2.12,13).

Não podíamos nos lembrar de Timóteo. Esse um verdadeiro filho para o apóstolo, além de ser um incomparável cooperador seu. Nenhum dos demais colegas de Paulo é tão calorosamente recomendado por sua lealdade como Timóteo: “Mas você tem seguido de perto o meu ensino, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as perseguições e os sofrimentos que enfrentei...” (2Tm. 3.10,11).

Veja quando calor humano, quanto amor, carinho, atenção, dedicação havia por parte do apóstolo. Será que não estamos acabando com esses sentimentos em nosso meio?
Não temos nos esquecido de demonstrar nosso calor humano a tantas pessoas que tem nos ajudado, nos compreendido, atendido em alguma necessidade, dirigido uma palavra em hora oportuna. Onde estão aqueles que nos foram hospitaleiros? Que arriscaram a vida por nós? Que estiveram na prisão conosco? Que trabalharam arduamente? Onde estão nossos amigos e irmãos? Temos procedido como Paulo para com eles? Nos lembrado de suas boas obras? Temos sido eternamente agradecidos?

Isso se chama calor humano. Você se lembra de algum irmão que não tem vindo aos cultos? O que fez a respeito? Procurou saber notícias suas ou simplesmente ignorou o fato? Você é daqueles que têm o costume de sair antes que o culto acabe, ou sair apressadamente e não falar com ninguém? Quantas pessoas você cumprimenta ao término dos cultos com um sorriso cristão? Por quais irmãos você ora durante a semana, ou faz um telefone?

Deixe-me dar um conselho a você: “Faça amigos e cultive-os”. No fim da sua vida, quando muitos o haviam abandonado, Paulo podia contar com seus amigos, como Lucas e Timóteo. Levante-se agora de uma abraço em alguém que você não cumprimenta a tempos. Durante essa semana telefone para um irmão com o qual você não conversa a muito tempo, escreva uma carta a um amigo ou um parente distante. Diga que o ama e que sente saudades. Ore alguns minutos por alguém que está necessitado de sua intercessão. Tenha sentimentos; tenha calor humano. No próximo culto, não saia apressadamente, cumprimente os irmãos, dê um sorriso, um abraço e se possível cumpra com um mandamento apostólico
: “Saúdem uns aos outros com beijo santo...”.